A decisão da administração Trump de congelar milhares de milhões de dólares em ajuda externa representa uma mudança significativa na presença dos Estados Unidos em África. Com a redução drástica dos programas da USAID, muitos especulam que a China possa ocupar esse espaço. No entanto, especialistas alertam que essa substituição não é tão simples nem provável.

Historicamente, os EUA concentraram-se em programas de desenvolvimento económico, humanitário e de saúde através de um sistema de infra-estruturas que permitia a distribuição eficiente da sua ajuda. Por outro lado, a China apostou fortemente na construção de infra-estruturas físicas, como estradas e pontes, através de investimentos e empréstimos bilaterais. Esta abordagem transacional chinesa, baseada em parcerias “win-win”, contrasta com a tradição americana de auxílio humanitário estruturado.

Com a retirada da USAID, a China encontra um vazio geopolítico para expandir a sua influência. No entanto, os seus gastos diretos em ajuda humanitária são significativamente inferiores aos dos EUA, e a sua capacidade de suprir a lacuna deixada pelos americanos é limitada. Pequim poderá concentrar-se em ações de impacto pontual, como o fornecimento de vacinas ou o apoio a centros de saúde africanos, mas dificilmente assumirá o papel da USAID.

A retirada americana também pode levar à crescente dependência dos países africanos da China, um cenário que muitos governos procuram evitar. Assim, num contexto de rivalidade estratégica, os EUA podem reorientar os seus interesses em África para sectores mais estratégicos, como a extração de minerais raros, e aqui temos como exemplo mais evidente, o Corredor do Lobito, enquanto a China reforça a sua presença comercial e infra-estrutural no continente.

O futuro da disputa entre estas potências em África permanece em aberto.